Não é segredo pra ninguém que, depois do triunfo da Revolução Cubana no alvorecer de 1959, a relação diplomática da ilha de Fidel com os Estados Unidos tem sido bastante conturbada. Seja pelas expropriações de propriedades de estadunidenses em Cuba no início do processo revolucionário, seja pela Crise dos Mísseis nos efervescentes anos 60 ou pela incessante campanha contra o governo revolucionário cubano, o país caribenho sempre teve uma relação espinhosa com a nação mais belicosa da face da Terra. Recentemente, o fato que mais marcou o assunto Cuba-Estados Unidos foi a questão dos Cinco Cubanos, como ficou chamado o caso de agentes secretos cubanos infiltrados em organizações anticastristas de extrema-direita baseadas em Miami, Flórida, território ianque localizado a menos de 100 km da ilha cubana.
A partir dos anos de 1960, quando a Revolução Cubana começa a intensificar reformas consistentes no modo organização da Ilha, como a reforma agrária, Miami se torna o principal destino de exilados cubanos. É pra lá que fogem pessoas que, por um motivo ou por outro, veem o governo revolucionário como um problema a ser evitado ou, em muitos casos, combatido. É de Miami que partem as primeiras agressões externas à Revolução, como o episódio conhecido como Invasão da Baía dos Porcos, em 1961, em que exilados treinados pela CIA promovem um ataque à praia Girón, na parte sul da ilha. Apesar de frustrado, o fato inaugurou uma série de atentados que seriam levados à cabo por exilados cubanos sob as barbas das autoridades estadunidenses, quando não a própria agência de inteligência dos EUA participava de forma direta ou indireta (os serviços secretos cubanos afirmam que só Fidel Castro já resistiu a mais de 600 atentados).

"Os Últimos Soldados da Guerra Fria", de Fernando Morais
Adiantando a história para o final da década de 1980, quando a União Soviética começa a derrocar de vez, o cenário que se tem é de uma Cuba com o futuro incerto devido ao fato de a URSS, seu principal parceiro comercial, começae a se dissolver. A entrada de Cuba nos anos 90 é marcada por um fato novo: a reabertura da ilha para o turismo, que passa a ser a sua principal fonte de renda.
Se desde 1º de janeiro de 1959 os exilados cubanos em Miami (boa parte deles composta por grupos mafiosos e da alta elite latifundiária cubana, ambos com negócios e privilégios prejudicados pelos barbudos comandados por Castro e Che Guevara) passaram a pregar que o fim da Revolução estava próximo, a década de 90 volta a assanhar os desejos dos cubano-americanos por “Cuba libre”.
Para isso, então, inicia-se uma série de ações contra o governo castrista, que incluem atentados a tiro e bomba contra hotéis e praias que recebiam um grande número de turistas, bem como transmissões clandestinas de rádio e invasões do espaço aéreo cubano (inclusive com aviões que levavam a insígnia do Exército dos Estados Unidos na fuselagem).
Quem participava das ações eram organizações anticastristas escondidas sob uma fachada humanitária, mas que, de fato, eram – em sua grande maioria – um reagrupamento dos mafiosos cubanos ansiosos por derrubar Fidel Castro. O raciocínio era simples: se a ilha se sustentava de turismo, era essa a veia que precisava ser sufocada para que, enfim, finalmente, depois de tanto tempo, Castro fosse derrubado
Como resposta, o estado cubano treina agentes e cria a Rede Vespa, uma organização secreta, a fim de monitorar as organizações de extrema-direita de exilados cubanos em Miami que realizavam ações terroristas contra Cuba. Pela rede passaram 14 cubanos que, para a opinião pública, “desertavam” e partiam para a Flórida em busca de abrigo. Todos eles, porém, espionavam as entidades em que se infiltravam como membros, isso tudo com o objetivo de repassar para Havana informações que pudessem evitar novos atentados terroristas contra o povo cubano, o que aconteceu algumas vezes durante os anos 90. Depois de alguns anos de operação, em 1998 a rede foi desbaratada pelo FBI e 10 cubanos foram presos. Cinco deles negociaram sua soltura por meio de um esquema de delação premiada e outros cinco foram condenados a penas que variam de reclusão de 15 a prisão perpétua.
A partir de então, a questão passou a ser diplomática: Cuba alegava que em nenhum momento seus agentes monitoravam o governo dos Estados Unidos ou realizaram ações que puseram em risco a segurança do país norte-americano; a intenção dos agentes era apenas evitar que novos atentados fossem levados a cabo. Isso tudo conta com um agravante: a conivência das autoridades estadunidenses em relação a esses grupos, pois nenhum deles, incluindo seus líderes, jamais foi incomodado pelos atos que praticavam contra Cuba, mesmo que sua participação no terrorismo anticastrista fosse documentalmente comprovada por Havana, inclusive com informações prestadas pelos agentes da Rede Vespa. O terrorismo anticastrista sempre encontrou solo calmo e fértil para se proliferar na Flórida, tal qual ocorreu com os membros da Al-Qaeda que jogaram dois aviões sobre o World Trade Center em 11 de setembro de 2001.
Recentemente, um dos “Cinco Heróis”, como são conhecidos os ex-agentes cubanos, René Gonzáles, foi solto e cumpre liberdade condicional, tendo que permanecer ainda por mais três anos em Miami. No entanto, os outros quatro ainda não tem previsão de soltura e é provável que o caso se arraste por anos e anos, como ocorre com outros prisioneiros políticos dos Estados Unidos. O curioso nesse caso é ver como, mais uma vez, a imprensa mundial “alinhada” com a política internacional dos Estados Unidos silencia. Aqui no Brasil, os grandes grupos de comunicação não se posicionam em favor da liberdade dos cubanos como se posicionaram recentemente sobre o caso de um suposto preso político cubano que morreu em greve de fome. Inclusive nos Estados Unidos (ah vá!), o silêncio da “grande” mídia é um agravante nesta situação, como relata uma notícia do Opera Mundi em que uma pacifista estadunidense expõe o não dito da imprensa de seu país sobre o caso dos Cinco e também sobre as condições de vida em Cuba.
A história toda dos cinco cubanos presos nos EUA é contada de forma muito mais detalhada no livro “Os Últimos Soldados da Guerra Fria”, de Fernando Morais, lançado recentemente pela Companhia das Letras. Além disso, o Fernando Morais tem dado algumas entrevistas sobre o caso, como pode ser visto na Revista Fórum, na Terra Magazine e no Programa do Jô aí embaixo.