Aconteceram antes de ontem, dia 17 de setembro, algumas movimentações nos Estados Unidos. Jovens resolveram ocupar, pacificamente, o coração do mercado financeiro mundial, a Bolsa de Valores de Nova Iorque em Wall Street. Muitas ocupações, bem maiores e com consequências bem mais drásticas, vamos assim dizer, rolaram tanto nos EUA quanto em outras partes do mundo nos últimos meses, como a Primavera Árabe, os Indignados da Espanha e os estudantes inssurrectos do Chile. Aí você me pergunta: por que carajo tratar desse caso dos EUA, que nem repercussão na mídia teve (ah vá, sério?) por aqui, salvo alguns gatos pingados (os mesmos de sempre)?.
A resposta é bem simples: porque isso me lembrou um clipe do Rage Against The Machine. O vídeo em questão, da música “Sleep now in the fire” (uma aula de ironia e história, diga-se de passagem), dirigido por nada mais, nada menos do que Michael Moore, mostra um miniconcerto realizado pela banda californiana na boca do inferno, lá onde as coisas acontecem e os rumos da sua, da minha, das nossas vidas são decididos por um bando de capitalistas engravatados que pouco querem saber de qualquer coisa que não envolva lucros, superávit, liquidez e a essa porra toda que a grande maioria dos mortais não faz ideia do que seja.
Aí, retomando o início do primeiro parágrafo deste texto, ocorre-me o seguinte: o manifesto divulgado pelos ocupantes de Wall Street informava que os manifestantes estadunidenses emprestariam dos “irmãos e irmãs no Egito, Grécia, Espanha e Islândia” a “tática revolucionária de ocupação massiva da primavera árabe para restaurar a democracia nos Estados Unidos”. Aqui, no nosso querido e surrado Brasil, há um movimento enorme que, volta e meia, realiza ações de ocupação massiva. Ele se chama Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra e é bem conhecido pela sigla MST. No entanto, as ocupações massivas do MST são chamadas de “invasão” e, pra variar, os lutadores que querem construir um Brasil melhor e mais justo são vistos como vândalos, vagabundos e tudo mais.
Enfim, voltando ao tema desta postagem, veja aí o clipe do RATM. É legal saber que a ideia permanece acesa e que ainda temos gente que luta contra os gigantes.
O mundo é minha despesa
O custo do meu desejo
Jesus abençoou-me com seu futuro
E eu protejo isso com fogo
Então, levante seus punhos
E marche por aí
Só não pegue o que você precisa
Eu vou prender e enterrar os comprometidos
E sufocar o resto em ganância
Rasteje comigo para o amanhã
Ou eu vou arrastá-lo para sua cova
Eu estou no fundo de seus filhos
Eles traição você em meu nome
(Refrão:)
Hey, Hey
Durma agora nas chamas
Hey, Hey
Durma agora nas chamas
A mentira é minha despesa
A mira de meus desejos
O Partido abençoou-me com o seu futuro
E eu protejo isso com fogo
Eu sou a Nina, a Pinta, a Santa Maria
A armadilha e o estuprador
O inspetor de campos
Os agentes do laranja
Os sacerdotes de Hiroshima
O custo de meus desejos
Durma agora nas chamas
(Refrão)
Para isso, é o fim da história
Isso ainda está preso e congelado
Não há outra pílula para tomar
Então engula a única
Que te deixa doente
A Nina, a Pinta, a Santa Maria
A armadilha e o estuprador
O inspetor de campos
Os agentes do laranja
Os sacerdotes de Hiroshima
O custo de meus desejos
Durma agora nas chamas
A música, cujo título traduzido livremente fica “Durma agora nas chamas”, usa da ironia para se transformar na voz do sistema, na voz do mercado, esse ente divino e abençoado pela graça de todos os deuses, que seria autorregulável e resolveria todos os problemas dos homens de boa fé.
Os versos cantados por Zack de la Rocha compõem uma descrição precisa do Consenso de Washington, do fim da História apontado pelo Fukuyama e da ofensiva neoliberal dos anos 90. A composição coloca tudo isso como mais um reflexo da sanha imperialista dos poderosos ao fazer referência a coisas como a chegada dos espanhóis à América (“eu sou a Nina, a Pinta, a Santa Maria”), ao imperialismo travestido de agente laranja na Guerra do Vietnã (“os agentes do laranja”) e também ao maior atentado terrorista da história (“os sacerdotes de Hiroshima”). O neoliberalismo foi oferecido aos povos do Terceiro Mundo como o único remédio, visto que “não há outra pílula a ser tomada”. Assim sendo, se, na visão dos mentores dos Chicago Boys só haveria uma única saída, pouco importava se o remédio deixaria os povos ainda mais doentes.
Um trecho de destaque:
“Então, levante seus punhos
E marche por aí
Só não pegue o que você precisa
Eu vou prender e enterrar os comprometidos
E sufocar o resto em ganância…”
Não é incomum ver intelectuais de “esquerda” que mudaram de lado, viraram a casaca e disseram coisas como “esqueçam tudo o que eu escrevi”. FHCs, Arnaldos Jabores e Marios Vargas Lllosas da vida, que resolveram que a desesperança com um lado era motivo suficiente para partir para outro e defender tudo que vem por ali com unhas e dentes. Para muitos, se as ideias por si só não eram suficientemente convidativas à virada de casaca, a ganância fez bem esse papel e seduziu governos e governantes.
Mais um:
“Rasteje comigo para amanhã
Ou eu vou arrastá-lo para sua cova…”
O Consenso de Washington, tal qual os dogmas – do cristianismo ou do estalinismo, não permitia questionamentos. Então, aqueles que queriam caminhar rumo ao primeiro mundo tinham apenas uma opção: rastaejar para o amanhã ou ser levado para sua própria sepultura. Teve gente que comprou gato por lebre e acabou fazendo as duas coisas (vide o caso do México frente à crise de 2008, por exemplo).
Enfim, a música é maravilhosa e cheia de coisas para serem esmiuçadas. Essas daí foram apenas algumas reflexões que tive…
Bravo!
Muito bom o texto e as reflexões feitas a partir da música, parabéns!
Bacana o texto, parabéns.
Essa música é sensacional… assim como seu clipe. Como fã da banda, essa foi sempre a minha predileta. O texto e as reflexões estão muito boas, parabéns!
ADOREI A MATÉRIA!!!!